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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Matéria do Jornal O Globo com a participação do sócio Rodrigo Papazian falando sobre as consequências da mudança de cidade em razão da carreira profissional.

Trocar de cidade em função da carreira requer cuidados

Reflexos da mudança de vida devem ser analisados a longo prazo

POR EDUARDO VANINI

Especialistas indicam os cuidados antes de alçar voo rumo a uma nova cidade – 

 

RIO – Em junho deste ano, o analista de comunicação interna da L’Oréal Brasil, Renan Carvalho, desembarcou no Rio para o início de uma grande mudança. Ele deixou o apartamento onde vivia com a companheira e dois gatos em São Paulo para morar em solo carioca em função do novo emprego. A oportunidade de assumir um cargo sênior e fazer carreira numa multinacional motivaram a escolha.

— Tenho 31 anos e ainda não tenho filhos. Apesar da saudade da minha namorada e da família, achei que era um bom momento para viver essa experiência — reflete o rapaz, nascido e criado na capital paulista.

Tomar uma decisão dessas não é simples. Saber ponderar os prós e os contras de uma mudança de cidade é fundamental para evitar uma experiência desastrosa nos campos profissional e pessoal. Afinal, viver longe de casa envolve questões desafiadoras, como gastos, adaptação cultural e adoção de novos hábitos.

No caso de Carvalho, como ele estava de férias quando recebeu a proposta, houve tempo para ponderar todos os aspectos por trás da mudança. Graças a este cuidado, ele fez a transição com a certeza de que havia acertado na escolha. E para tornar as coisas mais fáceis, ele recebeu alguns apoios da empresa, como pagamento de passagens, acomodação em hotel, reembolso de parte do aluguel e apoio financeiro para gastos extras da mudança, como contratação de serviços.

ALÉM DO FINANCEIRO

Mas pensar apenas nos ganhos profissionais e nos benefícios não basta. Segundo a coach de carreira Dayse Gomes, quando a negociação não é feita às claras entre as partes, as chances de dar errado são grandes.

— O empregado tem que saber quais serão as perspectivas dele no novo posto de trabalho e vislumbrar suas chances reais de crescimento. A partir disso, tem que avaliar se aquela mudança faz sentido para a vida dele. A promoção pode parecer atraente no começo em função de um aumento salarial, mas pode se transformar numa furada se o profissional não se adaptar ao novo ambiente — comenta ela.

A Coca-Cola Brasil também oferece um pacote de apoio robusto quando um funcionário da casa é deslocado. A lista inclui uma premiação anual no valor de R$ 13 mil, o pagamento de 85% das despesas com aluguel, condomínio e IPTU ( dentro de um valor definido), uma passagem por ano para funcionário, cônjuge e filhos, apart hotel por um mês, cobertura dos gastos com a mudança e ajuda de R$ 7 mil na ida e na volta para cobrir despesas com instalações e serviços.

Mas antes de chegar a esses benefícios, há uma forte preocupação com o diálogo com o funcionário. Como resume a vice-presidente de RH da empresa, Raissa Lumack, se por um lado a mudança exige um investimento financeiro da empresa, por outro há um forte investimento emocional do empregado.

— Sempre existe um risco de a pessoa ou a sua família não se adaptarem àquela localidade. Então, tem que haver muita conversa antes da movimentação, para que o indivíduo tenha clareza sobre o que a mudança vai possibilitar. Normalmente, quando fazemos isso, queremos proporcionar uma experiência que não seria possível no local de origem e acelerar a carreira daquele profissional — afirma a vice-presidente de RH da empresa, Raissa Lumack.

O diretor de operações da Coca-Cola Thiago Coelho já mudou de endereço três vezes – Divulgação

O diretor de operações da Coca-Cola Thiago Coelho conhece bem esses trâmites. Em dez anos de companhia, ele já mudou de endereço três vezes. Começou em Cuiabá, foi transferido para Brasília, depois foi para Fortaleza e agora está no Rio. Até o momento, ele só viu vantagens.

— Se não tivesse tido toda essa movimentação, teria perdido muito. Não teria a bagagem que ganhei passando por diferentes regiões. É um aprendizado que não se adquire em nenhuma sala de aula. Só com o pé no chão, mesmo — avalia ele.

CUIDADOS PRÁTICOS

Partindo para os aspectos práticos, Dayse recomenda ao profissional conversar com quem já tenha passado por esta situação. Antes de aceitar a mudança, saber como os colegas superaram os desafios pode ser esclarecedor.

— É sempre válido consultar os pares sobre as experiências e tentar entender como foi o processo de adaptação deles — reforça a coach.

Para o sócio-fundador da consultoria executiva Unique Group, Gustavo Costa, diante de uma situação dessas é importante que o funcionário monte uma espécie de roteiro para chegar até a decisão final. E isso deve envolver toda família.

— A grande maioria dos insucessos em mudanças está ligada à não adaptação dos familiares. Então, é preciso levantar informações sobre escola para os filhos e avaliar as condições de a esposa ou o marido conseguirem um emprego na nova cidade. É importante conhecer minimamente o local de destino e sua cultura, bem como avaliar como será o networking. Até mesmo pontos como distância entre a residência e o trabalho e as condições de trânsito precisam ser observadas — lista ele.

Outro ponto sensível, segundo Costa, são os custos praticados na nova cidade. Se for muito alto, pode ser que um aumento salarial não compense.

— Recomendo observar se o estilo de vida que a pessoa leva em seu local de origem poderá ser mantido — aconselha ele.

Costa cita o exemplo de um conhecido para mostrar como uma escolha malfeita pode trazer grandes transtornos.

— Conheço um executivo brasileiro do ramo do petróleo que foi com a família para a Bélgica e não teve uma boa adaptação. Como a atribuição era tratar de questões referentes ao Oriente Médio, a base dele era no país europeu, mas ele passava 70% do tempo viajando para outros lugares. Para piorar, os filhos não se adaptaram ao clima frio e à escola. Então, ele precisou buscar uma outra posição na empresa, mudando-se novamente — conta ele.

SABER A HORA DE RECUSAR

O problema é que a liberdade de escolha nem sempre é uma possibilidade dentro das companhias. Por isso, para Dayse, quando a empresa coloca a mudança como algo inevitável, talvez valha uma experimentação por parte do profissional antes de recusar. Se as coisas não se saírem bem, aí o melhor caminho é galgar uma mudança de emprego.

 

— Sempre recomendo aos profissionais que façam, pelo menos, três meses de teste no novo endereço para checar a adaptação — comenta ela.

Ainda sobre uma recusa, o advogado Rodrigo Papazian, especialista em direito trabalhista, lembra que o funcionário tem amparo legal para dizer não.

— A empresa não pode demitir por esse motivo, muito menos por justa causa. Até porque o artigo 469 da Consolidação das Leis do Trabalho determina expressamente que o empregado só pode ser transferido se concordar com a transferência — ressalta ele. — E caso a transferência seja provisória, o trabalhador tem direito a receber adicional equivalente a 25% de seu salário, enquanto durar.

Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/trocar-de-cidade-em-funcao-da-carreira-requer-cuidados-20492766