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terça-feira, 2 de maio de 2017

Nova participação do sócio Rodrigo Papazian em matéria veiculada pelo Jornal O Globo falando sobre as fraudes no ambiente corporativo.

Consultorias mapeiam fraudes no ambiente corporativo.

 

RIO – Enquanto os brasileiros se revoltam diariamente com novas notícias de fraudes na cena política, movimentos semelhantes podem estar acontecendo silenciosamente em seus locais de trabalho. Irregularidades que vão da adulteração da folha de ponto ao desvio de verba são mais frequentes do que muita gente imagina e atingem todos os níveis hierárquicos, como mostram alguns levantamentos feitos por consultorias especializadas.

Uma pesquisa da empresa de gestão de riscos e compliance Protiviti Brasil, baseada na análise de 43 casos investigados pela companhia, apurou que 57% das ações fraudulentas são cometidas por gerentes e diretores, enquanto 43% são realizadas por funcionários abaixo do nível executivo. O mesmo estudo mostrou que, dos casos investigados de fraudes internas, 58,4% estão ligados ao favorecimento de fornecedores, ao conflito de interesses envolvendo amigos e familiares de funcionários e a fraudes nos pagamentos. Áreas como compras, vendas ou relacionamento com o cliente são as principais portas de entrada para irregularidades assim.

— Muitos profissionais ainda não veem o conflito de interesses como desvio ético significativo no ambiente profissional. Diversos deles entendem a prática como um favor ou uma troca de benefícios sem compreenderem, de fato, os malefícios e as consequências desta ação — avalia Antonio Carlos Hencsey, responsável pela prática de ética e compliance da Protiviti e um dos coordenadores da pesquisa. — Por outro lado, também ainda é muito comum as companhias depositarem exclusivamente na mão de seus funcionários a responsabilidade de relatar esses conflitos, não havendo qualquer postura ativa da organização.

A S2 Consultoria, especializada em prevenir e tratar atos de fraude e assédio nas organizações, também já fez um levantamento sobre o tema. Foram feitas entrevistas com funcionários de dez empresas e todos confessaram a execução de irregularidades, relatando como foram cometidas, descrevendo modus operandi e motivações. Os resultados surpreenderam. Entre as principais justificativas usadas pelos autores estão capacidade técnica, autonomia e pressão por resultados, além da minimização do ato.

— A ganância em si não é o principal motivador para a fraude. Aliás, identificamos que o benefício oriundo do ato representa só 33% da remuneração anual do fraudador. Em outras palavras, ele perde seu emprego, corre o risco de responder a um processo criminal ou cível e prejudicar toda sua carreira por apenas quatro meses de seu salário. Isso reafirma o que o senso comum diz: o crime não compensa, nem mesmo financeiramente — avalia o sócio da consultoria Renato Santos.

O problema nem de longe se restringe a ações complexas. Como cita Antonio Carlos Hencsey, de forma geral, as pessoas querem se perceber como honestas. E, justamente em razão disso, pequenos desvios que não chegam a comprometer essa autopercepção moral ocorrem com frequência significativa.

— Arredondamentos em notas de reembolso, mesmo aquelas de menor valor, uso indevido do cartão corporativo, dar informações falsas (desde o envio do currículo até a apresentação de relatórios), estreitamento indevido de relacionamentos comerciais por meio de oferta ou recebimento de presentes e gratificações são alguns exemplos — descreve ele. — E quando falamos de comportamentos antiéticos, não necessariamente fraudes, o número de comportamentos é ainda maior. É o caso de mentiras, brincadeiras ou tratamentos jocosos.

CUIDADO COM O ‘JEITINHO’

Cynthia Catlett, diretora da FTI Consulting, que também atua no segmento de combate à fraude e corrupção, reitera como atos “menores” também devem ser interpretados sob o mesmo prisma.

— Utilizações de recursos da empresa, como telefone e impressora, para uso pessoal ou sem autorização, e pedido de reembolso de refeições pessoais como despesa de negócio, incluindo bebidas alcoólicas. Todos são comuns, mas não deixam de configurar uma fraude — frisa ela. — Fraude e corrupção ainda permeiam a cultura brasileira e isso muitas vezes aparece disfarçado de “jeitinho”. Essencialmente, usa-se uma vantagem pessoal ou uma percepção de esperteza para justificar um ato incorreto ou ilícito.

Se a fraude é um problema grave, o sócio da S2 Consultoria Renato Santos afirma que não cabe simplesmente “demonizar” seus agentes.

— A ideia de que um colaborador se torna fraudador meramente por uma decisão pessoal é uma visão míope do problema. Em muitos casos, a atitude é fruto de uma cultura organizacional entranhada em todos os níveis e até mesmo do seu chefe. Quando identificamos um profissional agindo assim, precisamos investigar as causas que o levaram a isso. Não raramente, percebemos que agiu desse jeito porque “todo mundo faz” ou “sempre foi assim”. Então, o desenvolvimento do profissional em termos éticos pode direcioná-lo novamente ao que é o certo — acredita ele.

Por motivos como este, Santos defende a valorização da gestão da cultura ética nas companhias. Para ele, quando a organização compreende a cultura praticada pelos seus funcionários quando se deparam com dilemas éticos e reforça o que se espera deles, acaba inibindo as ações fraudulentas de maneira efetiva.

— Mas isso se faz com ações contínuas e não isoladas, o que significa que apenas uma campanha de lançamento do código de ética, por exemplo, não é suficiente para contornar o problema. É preciso ter uma cadência consistente de ações em paralelo a bons exemplos praticados pelos gestores — frisa ele.JUSTA CAUSA

O advogado trabalhista Rodrigo Papazian lembra que o artigo 482 da CLT prevê que, em casos de fraude, o empregado pode ser punido com a demissão por justa causa. Se a falta não é tão grave, pode ser advertido formalmente ou suspenso temporariamente.

— Em regra, as empresas não punem o empregado criminalmente. Até porque as faltas cometidas, que ensejam a justa causa, nem sempre configuram crime. Quando causa prejuízo financeiro relevante, a empresa pode optar por noticiar o crime e tentar posteriormente a reparação civil por meio de ação própria — detalha ele.

O coordenador do Projeto Ética e Realidade Atual da Escola de Negócios da PUC-Rio, Danilo Marcondes, enfatiza que, ainda que tais práticas sejam recorrentes, isso não sustenta uma visão de que o Brasil é um país de corruptos, como muitas interpretações sugerem.

— É uma percepção exagerada. Talvez aconteça mais do que a gente gostaria, mas ainda é concentrado em algumas pessoas — avalia ele, argumentando que, se fosse tão disseminado assim, muitas organizações não funcionariam. — Além do problema moral e legal, a fraude causa a ineficiência, materializada em qualidade inferior dos serviços prestados. E dentro de uma empresa isso é muito latente, pois gera problemas como desperdício de material, obras de qualidade inferior e não cumprimento de prazos.

Marcondes também defende que as companhias adotem políticas bem estruturadas em torno da ética:

— É preciso instalar uma comissão dedicada ao assunto, uma ouvidoria e fazer treinamentos, sempre assegurando a confidenciabilidade. As empresas que agem assim têm funcionários trabalhando melhor e mais motivados. Caminha-se sempre passo a passo e o desafio é permanecer nesse caminho. Como costumo dizer, a ética é um ponto de partida, e não de chegada.

Fonte: http://oglobo.globo.com/economia/consultorias-mapeiam-fraudes-no-ambiente-corporativo-21273341